Educação

Surdos querem ter voz no mercado de trabalho

Por Raabe Andrade / Redação noVitrine


Fernando Ribeiro dos Santos é um jovem tocantinense de 34 anos de idade. É formado em Ciências Contábeis, pós-graduado em Libras e, atualmente, cursa sua segunda graduação em Letras-Libras, pela Universidade Federal do Tocantins. Fernando atuou durante 7 anos em uma empresa como contador, mas movido por sua paixão pela Libras, iniciou sua segunda graduação, pois tem o objetivo de se tornar professor. Acontece que desde 2019, quando foi dispensado de seu emprego como contador, ele tem tido dificuldade em se recolocar no mercado de trabalho. A razão? Fernando é surdo.

Aqui eu aproveito para esclarecer a diferença entre surdez e deficiência auditiva: a última pode se referir a qualquer nível de perda na audição, enquanto que a surdez diz respeito à perda total do sentido. Ou seja, o nome correto para se referir a alguém que não ouve, é surdo mesmo, e isso não é uma forma de tratamento rude ou errada. O Fernando nasceu ouvinte, mas aos três anos de idade teve meningite e como consequência perdeu a audição.

Essa condição impõe não só a ele, mas a outros milhares de surdos no Brasil, dificuldades adicionais quando falamos de emprego. De acordo com o estudo realizado pelo Instituto Locomotiva, em parceria com a Semana da Acessibilidade Surda em 2019, apenas 37% dos mais de 10 milhões de deficientes auditivos no Brasil, estão no mercado de trabalho. E há uma tendência muito forte de atuação em trabalhos autônomos, o que pode estar relacionado a uma dificuldade em conseguir emprego no mercado formal.

A raiz do preconceito é a desinformação

Conversando com Fernando ele relata uma situação muito preocupante, um misto de preconceito e desinformação por parte das empresas. “As empresas só querem que a gente trabalhe nas áreas mais básicas, serviços gerais, empacotador em supermercado... Eles acham que a gente não tem capacidade de trabalhar em outras áreas como contabilidade, administração, informática. E eu não quero isso, porque eu estudei, me formei e eu sei que tenho capacidade!”, relata.

Esse desencontro entre o que o profissional surdo tem a oferecer e o que a sociedade acredita que ele é capaz, tem raízes, basicamente, na desinformação. Há um mito de que o surdo é incomunicável, mas o que a realidade mostra é algo completamente diferente! O Fernando aprendeu Libras ainda na infância e desde pequeno teve contato com a comunidade surda. Sua família, entretanto, apesar de saber o alfabeto e alguns sinais em Libras, nunca se tornou fluente no idioma e na maior parte do tempo se comunica com ele por gestos e escrita. Ou seja, a comunicação entre ouvinte e não ouvinte é possível, mesmo que o ouvinte não saiba Libras.

O desconhecimento sobre este fato é uma das principais barreiras à contratação de surdos, é o que pontua Alini Alves, intérprete de Libras que intermediou minha conversa com o Fernando. “As empresas acham que pelo surdo ser usuário da Libras, eles vão ter que contratar um intérprete para trabalhar junto com ele, e na verdade não precisa. [O surdo] consegue se comunicar com papel, com a pessoa falando bem devagar para ele fazer leitura labial e algo que eu acho muito interessante, é que quando tem um surdo no ambiente de trabalho, as pessoas no entorno acabam aprendendo a se comunicar em Libras também”. Ou seja, é tudo uma questão de adaptação e com o tempo a comunicação tende a ficar muito mais fluida.

Outra dificuldade enfrentada é o despreparo dos RHs para lidar com o candidato surdo, porque dificilmente o setor ou a empresa de RH têm um funcionário fluente em Libras para entrevistar o candidato. É claro que esta não é uma dificuldade exclusiva da área de recrutamento e seleção, mas a falta de acessibilidade nesse setor específico, é um grande limitador para o profissional surdo. “Às vezes numa entrevista de emprego, eles me entregam o formulário para eu responder, mas eu queria mostrar para eles que eu sei me comunicar, eu gostaria de colocar as minhas opiniões e não posso”, relata Fernando.


À esquerda, Alini Alves, intérprete, fazendo o sinal que representa Libras. À direita Fernando Ribeiro, sinalizando Letras-Libras, seu segundo curso de graduação.

Comunicar é acolher

A comunicação é algo fundamental para qualquer ser humano, e me refiro a todo nível de comunicação: oral, escrita, por meio de sinais, sons, figuras e etc. A fase escolar de Fernando, por exemplo, foi um momento complicado, porque ele não conseguia entender e se fazer entendido: “Eu tive muitos problemas, eu estudava em uma escola exclusiva e não tinha intérprete de Libras. Eu tenho inclusive traumas sobre isso”, relembra. O período acadêmico já foi um pouco melhor. Na faculdade de Ciências Contábeis havia intérprete e agora na Letras-Libras, todo curso é dado no seu primeiro idioma.

Isso nos remete ao fato de que a comunicação é algo tão importante, que é reconhecida pela Unesco como um direito humano fundamental. A este ponto, pergunto a Fernando:
_ Como você se sente, quando chega em algum lugar e a pessoa que te recebe consegue se comunicar com você em Libras?
E com um sorriso genuíno, Fernando responde:
_ Eu fico muito feliz! É uma interação muito melhor quando eu encontro alguém que sabe Libras. É uma felicidade que eu nem sei te explicar! Quando eu vejo a pessoa se comunicando em libras, eu entendo que ela respeita a comunidade surda.

Não é sem razão, portanto, que quando pergunto o que ele considera ser o primeiro passo para reverter a situação do surdo no mercado de trabalho, a resposta esteja na ampliação da comunicação. “Primeiro tem que partir de nós, surdos, não aceitarmos empregos abaixo da nossa capacidade e depois as empresas e os RHs devem procurar aprender Libras. E eu acho que isso tem o potencial de mudar a sociedade”, pontua Fernando.

Veja o vídeo: Os surdos têm voz!



Por que contratar um surdo?

Mas depois de expor as dificuldades e esclarecer alguns mitos, ainda fica a pergunta: por que é vantajoso para a empresa contratar um funcionário surdo? Com o auxílio da Alini, intérprete de Libras e funcionária pública, elenquei alguns pontos:

A comunicação é fácil, basta um pouco de boa vontade no início

Como já falamos, a comunicação é uma questão de adaptação. Mesmo que o surdo não seja oralizado (ou seja, que ele não consiga falar), ele pode se comunicar por escrita e por gestos, além disso, os colegas naquele ambiente acabam se adaptando. Ou seja, não será necessário contratar um intérprete para o dia a dia, apenas para treinamentos presenciais pesados, em que a leitura de lábios não seja possível. Caso contrário, se a capacitação for online, por vídeo e tiver legendas, esse processo será muito mais tranquilo.

O surdo é mais focado no trabalho

A segunda vantagem é o exemplo claro de tornar o limão uma limonada. Algumas empresas têm investido na contratação de surdos, justamente porque essa condição contribui para que o profissional não se distraia com pessoas e sons externos. Um exemplo são empresas de saneamento e recursos hídricos que tem setores de trabalho onde há muito ruído ou que são muito agitados. Nesses ambientes, profissionais surdos são ideais, porque são capazes de se manter focados e produtivos, mesmo com ruídos.

Vai tornar sua empresa mais eficiente e inclusiva

O fato é que não é só em Palmas, ou no Tocantins, que os surdos têm tido dificuldade para se colocar no mercado de trabalho. E por isso, além da facilidade em manter o foco já mencionada, pessoas que estão tão sedentas por oportunidade, tem tudo para dar o melhor de si em uma empresa. A empresa se torna mais eficiente e contribui para a melhoria da sociedade como um todo.

Falta pouco para o Fernando concluir sua segunda graduação, o sonho de ser professor continua vivo e até que ele o alcance, sua luta pelo direito da pessoa surda exercer sua profissão com dignidade, continua. Na entrevista o Fernando me disse que ama aprender e ensinar e, por isso, quer ser professor. Neste dia Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência, eu só tenho a dizer que, mesmo sem um contrato de professor, você, Fernando, nos ensinou demais!

Como você pode se engajar

Se você é gestor de uma empresa, profissional de RH, ou simplesmente alguém que se interessou em aprender Libras, o IFTO pode te ajudar. A Coordenação de Inclusão e Diversidade se colocou à disposição para fazer parcerias com empresas e promover capacitações em Libras. Você pode entrar em contato pelo email: [email protected] e conversar diretamente com a Alini Alves.

Você pode, ainda, procurar o CAS, Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com Surdez, em Palmas. Lá você pode buscar informações e buscar conhecer melhor a comunidade surda em Palmas.  
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